bergamota sinsemilla



Quarta-feira, Julho 26, 2006


sou só eu que não sou eu
ou ninguém é ninguém?


Sábado, Julho 22, 2006


Tudo por um pouco de tesão

Quando eu tinha uns 5 anos, tinha uma galerinha do mal na turma da escola. Eram temidos e admirados, um grupo do qual muitos queriam fazer parte, mas devido à forma de ingresso, poucos conseguiam. Eu nunca os achei nada de mais, mas era um dos poucos. Os 'Comedores de Cola', como eram conhecidos, discursavam sobre os benefícios de ingerir cola, batom e outras substâncias de fácil obtenção para crianças da nossa idade. E como comiam Tenaz, aqueles infelizes. O pior é que sobreviveram...

Agora, partindo pra algo semelhante mas muito mais sério. Devido às férias, to sempre na Cidade Baixa. Lá, em frente ao Bells (barzinho da moda), o cheiro de cigarro se confunde com o cheiro de gente que enforcou o banho; com cheiro de baseado e cheiro de gente perfumada; cheiro de guria, cheiro de homem. Cheiro de mijo e cheiro de cola. Mas não a branquinha escolar, lavável e inofensiva até para nossas mucosas internas. Esta cola exala cheiro volátil de solvente, penetra nas narinas de todos que passeiam por ali (ou por qualquer lugar nos arredores do centro ou das sinaleiras da Ipiranga). É a cola de sapateiro, que cola as solas e assola o corpo dos jovens pivetes que ocupam as ruas de Porto Alegre.

Eu tinha me acostumado a nem dar bola, não sentia mais nem um pouco de pena dos gurizinhos de 1,30m de altura, com seu paninho na mão fechada, e aquele rosto sempre parecido, com traços cadavéricos, o crânio moldando a pele esticada do rosto e os dentes projetados pra frente, corroídos pela droga. O máximo de contato que eu tinha com eles era quando negava as moedas "pra comprar pão" ( aaaham! ). Dizia que não tinha nada e eles iam embora; em raras vezes ainda os desmascarava "é pra comprar a colinha que eu sei cara!", e ele fingia que nem ouvia e seguia pro próximo.

É, os cheradorezinhos já faziam parte da paisagem, do repertório de tristezas a serem ignoradas por qualquer portoalegrense que queira se embebedar sem desconfortos. Mas ontem, caminhando de um bar pro outro, ví duas gurias gatíssimas agachadas conversando com um gurizinho. Fui diminuindo o passo para ouvir o que elas falavam. Estavam tentando convencê-lo de que não valia a pena cheirar aquele troço, que ele era uma criança, que ia estragar sua vida. O pitoco retrucava rindo, envergonhado, que ele achava muito divertido, e que vivia na rua mesmo, a vida dele ia ser aquilo ali para sempre, então, que tivesse diversão. Fui me afastando, e da conversa dos três, só ficou a lembrança, comprei uma ceva e bebi os dois copos cheios em alguns minutos.

Hoje, andando de carro na Ipiranga, assisti pela enésima vez um dos pedintes de esquina fazendo malabarismo. É raríssimo um desses moradores-de-baixo-da-ponte não consumir drogas, e a cola, entre os menores, é o preferido. Como que eles se coordenam pra jogar as bolinhas dum lado pro outro, botar atrás da cabeça, fazer embaixada e tudo o mais? Bem, a gente esquece que bebe todas e volta dirigindo "na manha", que já teve época em que fumava maconha e se dava bem na prova do colégio, enfim, drogas fazem mal, mas tem como conviver com elas. Aí me liguei que talvez eu ignorasse os pequenos cheirando na Cidade Baixa, por que, assim como eles, eu tava lá pra me drogar, ceva atrás de ceva - eu e os da cola buscamos algo em comum: prazer, imediato e artificial. Por isso que a polícia trata os bebuns e os cheiradores da mesma forma: as duas drogas estão totalmente incorporadas na cultura dos que as consomem, e não há sequer instrução para que eles não o façam - o álcool é legalizado, e quem cheira cola não vai pra escola.

Hoje vou pro Bells beber de novo, e mais uma vez sentirei a caótica combinação de cheiros. No meio deles, estará o da cola de sapateiro, e eu, com meu copo de droga etílica, vou olhar um pivete dos clássicos, acenar com meu copo, sentir a reciprocidade da fraqueza. Ele levantará seu paninho, dará um bafo dos bons. Eu darei um golão. Não teremos palavras pra trocar, apenas a solidariedade dos que, por um instante, estão na mesma merda. Ele partirá, beberei mais um pouco, e darei um gole pro santo e outro pra Deus, por que se ele é brasileiro, deve curtir uma gelada.



Sexta-feira, Julho 21, 2006


eu adoro feriado, e não tenho nada contra dias de descanso, eles são merecidos, porém...

Todo dia é dia de alguém

Hoje o Leiria tentou me enganar. Ele me disse que era "Dia do Dente Torto", e que ele havia cumprimentado uma colega de trabalho com uma dentadura bastante errática pela data. Eu dei uma risada virtual e questionei se era verdade mesmo, ao que ele respondeu que não e lançou a pergunta: "tu não acha que seria mais significativo do que o 'dia do amigo'?". Eu pensei um pouco e concordei.

Dia das mães, pais, trabalhadores, crianças, nossa senhora isso e aquilo: só no mês de julho, comemoram-se mais de 25 datas. Falando em 25, apenas no dia 25 de julho de 2006, estaremos todos celebrando fervorosamente o dia de São Cristóvão, do colono, do motorista, e - que honra - do escritor (sim, neste dia, até os mais frustrados dos empunhadores de caneta devem sentir-se honrados). Qual o significado disso tudo, então? Imagine alguém obcecado por parabenizar os homenageados do dia, terá boas açoes a realizar pelo resto de seus dias!

Daqui a pouco, vai faltar critérios para se designar uma data à uma classe, gênero, profissão, então partiremos para os nomes próprios. Teremos o dia do João, do Rafael, da Maria, do Carlos, da Juliana. Ter um nome incomum nunca terá sido tão amargurante. As Joaquinas quem sabe dividam um dia com as Giselas, mas o que será das Xilenes, dos Raphaéis com pê-agá, dos Aristécios? Aí, teremos o 'Dia dos Nomes Estranhos", onde todos os nomeados inusitadamente poderão unir-se em sua exclusão e ser cumprimentados por terem um nome feio.

Mas voltando ao motivo do post. Não há, realmente, relevância para essas datas. É uma invenção para perder tempo, algo como um consolo, como uma mãe que dá um presente pro filho quando ele está triste. Há o dia dos trabalhadores, no qual todos comemoram a vitória de ter um emprego no Brasil, passando um dia SEM a merda de se trabalhar 12 horas por uma mixaria. Não quero ser agressivo, então nem vou entrar no mérito do trabalho na terrinha. Afora essas datas consolantes, recompensas à irresistíveis derrotas, há aquelas que são motivo para compra de presentes.

Complementando esse texto (tão sem pé nem cabeça quanto o que o motivou), deixo minha opinião. O 'Dia do Dente Torto', simbolicamente, representa mais do que a maioria das outras datas, que existem, comemoradas diariamente. Já que criar o dia do trabalhador não resolve o problema do desemprego, e o dia dos pais e das mães não aproxima a família mais do que o mundo de hoje os afasta, que criemos dias com utilidade pública, que motivem a solidariedade.

Ao invés do Fome Zero, façamos uma vez por semana o 'dia dos abonados darem um prato de comida a alguém na rua'. Talvez seja muito grande para escrever no calendário, talvez não sirva em nada para os comerciantes faturarem, mas se é pra isso que as datas existem, queimemos os calendários e demos aos comerciantes a opção de mudar de ramo, pois de marketeiros já bastam os políticos. Assim, enchamos os meses de datas que sirvam pra alguma coisa, pense bem, um dia de não matar quem reage a assaltos, ou o ainda mais incrível, dia de não assaltar! Mas pra isso, é claro, o dia dos abonados darem um prato de comida a alguém na rua teria que funcionar e se repetir quase que diariamente.

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Pensei em várias formas de começar a escrever esse post, uma mais idiota que a outra. É foda querer ser criativo, ainda mais pra escrever sobre algo que, antes te causasse algum tipo de incomodo, te é totalmente sem importância. Anteontem foi dia do amigo. Ou ontem, não importa.


pra quem entra na fila no brasil
há sempre a opção da meia volta
o direito à multa
ou a vergonha do furo


Terça-feira, Julho 18, 2006


os homens sobem no ônibus
que para pra quem mostra o dedo
e para sempre ao fim da linha
que é sempre também o começo
daqueles que já vêm cansados
e sobem de cabeça baixa
atravessam fora da faixa
levam na carteira uns trocados
e bebem um copo de cachaça
e choram e riem da desgraça
e voltam no escuro pra casa
e dormem a noite abreviada
são homens que acordam cedo
levantam a mão para o ônibus
e abaixam a voz pro patrão
e descem o braço nos fihos
pois têm a esperança no chão
andam nos seus tortos trilhos
aceitam sua condição

são homens que não pensam muito
porque é perda de tempo
pois o ônibus
vem sempre na mesma hora


Quinta-feira, Julho 13, 2006


agora eu posto textos aqui: www.holiud.blogspot.com

As férias são tediosas quando são só suas e de mais ninguém


Eu poderia estar me divertindo. Eu deveria estar. Mas estou aqui há horas, e a culpa é só minha. Eu devia ter pego recuperação na faculdade. Eu devia ter aceito qualquer estágio ou até um trabalho de gari. Eu devia ter procurado ontem, alguém para casar hoje. Eu devia ter posto em prática minha idéia inviável de morar sozinho com um salário de estagiário, sem sequer ser um. Sim, eu queria estar ocupado com a mudança. A de casa ou qualquer outra.

Às vezes as férias são um saco pelo simples fato de esperarmos por algo muito divertido durante nossos dias de ócio-recompensa. São um saco porque quando estamos ocupados com a faculdade somos tão medíocres que não sobra nada, apenas coçar esse saco que nos reservamos - não há projetos, apenas planos mentais que se perdem em meio a confusão que criamos por não ter nada para organizar. É tão pouca coisa concreta pra pensar, que não é sequer organizável esse pensamento do ócio.

E eu estou aqui falando mal das férias enquanto deveria estar me deliciando com elas. Sim, é muita mesquinhice reclamar de não ter nada pra fazer, nem com quem falar, quando todo o resto de seus amigos está dormindo suas sete horas de sono, para acordar amanhã às 7 horas e ir trabalhar por mais oito. Enquanto escrevo, meu irmão passa atrás de mim com um copo de água rumo à toca, e eu com a possibilidade de estar na Cidade Baixa com um copo de ceva, conhecendo outros mortais boêmios, corpos femininos evaporantes, estou aqui, afinal, se estivesse lá, falaria-lhes de como estão tediosas minhas férias, de como não tenho sequer no que pensar. É chato!

E vocês, como estão? O que acontece nos dias em que trabalham fora o que dizem pra quem faz tal pergunta? Como estão suas vidas fora tudo tranquilo? Será que sou só eu que preferia a orgia ufanista da copa? É, Porto Alegre pode ser maravilhosa quando não nos esforçamos em tornar ela um saco. Falando em saco, tá coçando...


Quarta-feira, Julho 12, 2006


Syd Barrett 1946-2006

Roger Keith Barrett morreu numa 6a feira de julho. Devia fazer calor em Cambridge, mais do que o normal, e como diabético, ele devia estar suando pra caralho. Provavelmente ofegava. Quando deu seu último suspiro, se existe mesmo algo de sobrenatural nesse mundo, muitos mortais devem ter sentido uma pontada no peito, uma orelha quente, um calafrio. A música de Syd, tanto no Pink Floyd quanto em carreira solo, era singular. É redundante, eu sei, mas ela era singular por sua singularidade, porque se existe uma definição para o termo música, esta provavelmente não sirva muito bem para o que Barrett fazia. Poderia dizer que foi influência para dezenas de artistas da música pop mundial, e que paradoxalmente, era muito anti-pop. As seqüências, a estrutura caótica, a simplicidade, o improviso, faziam da música do Floyd nos anos 60, e posteriormente do Madcap Laughs e do Barrett - seus albuns solo, de 69 e 70-,obras magníficas e tocantes. É tudo muito óbvio pra quem conhece a falta de obviedade Barrettiana.

Barrett não descia redondo à primeira escutada, é verdade. Mas uma vez que a fantasia era digerida, que a psicodelia era incorporada, o ouvinte passava a sentir com aquela música algo que dificilmente sentira antes. Talvez Beatles tenha um efeito parecido, principalmente no Revolver e no Sgt Peppers, mas nada se parece com The Piper at The Gates of Dawn, e nenhuma gravação tosca e sem ritmo pode causar o êxtase que as psicodélicas palhetadas e o canto perfeitamente desafinado de Syd solo causam.

Há um sentimento de pertença, um orgulho em gostar de Syd Barrett. De figura esquecida a simbolo cult, é fácil perceber que o homem adquiriu uma aura, um super-valor que o proviu de um caráter divino. Ainda assim, é um tanto underground. É como se fosse um tesouro que você preferia que ninguém mais soubesse, mas já que muitos mais sabem, é melhor que se faça um pacto pra não espalhar por aí. E já que é um tesouro e você se sente especial por possuí-lo, não perde uma oportunidade de dizer o quanto a música de Barrett te toca, o quanto ele é especial, como o LSD foi ao mesmo tempo o estopim - de sua genealidade e de sua queda. Há tanto para se dizer de Syd Barrett, e ao mesmo tempo tão pouco. Pouco por que, desde meados dos 1970, quando sumiu do mapa, o personagem Syd Barrett morreu. O Roger Keith Barrett, que continuou vivo até a triste sexta-feira, 7 de julho de 2006, era um homem qualquer, que vivia uma vida calma, sem glamour, andando da casa pra padaria, da padaria pra revistaria, e dali pra casa, onde pintava quadros e mexia no jardim. Esse Roger Keith Barrett foi quem faleceu, e dele, pouco se tem a dizer, e pouco importa.

Mais do que um dos maiores gênios do século XX, morreu com Barrett a esperança de milhares de fãs, de ver um dia o diamante louco voltar a brilhar, e com suas sequências caóticas de acordes, tocar nossos caóticos corações daquele jeito que nos tira do mundo em que vivemos, e nos leva para junto dos gnomos, espantalhos, planetas, o mundo dos sonhos, da nostalgia e da satisfação -sem a necessidade de LSD!

Clichê: shine on your crazy diamond.


Sexta-feira, Julho 07, 2006


nós, diferentes e nós, iguais

Buscamos a beleza em imagens
findamos sempre tão frágeis
pois vemos tão belo
e sentimos tão feio

ao prazer de fingir a ilusão de sentir
enganamos nós mesmos
na nossa quase diária
ode ao pôr-do-sol

e como o astro adorado nós vamos
do radiante amarelo quente do dia
ao vermelho escaldante que anuncia
a crueza obscura e clara da lua
nos perdemos na imensidão do céu
na noite, sem achar a estrela guia

é metafórico mas é tão verdadeiro
por que criamos nossos obstáculos
e superamos, cada vez mais fortes
e inventamos nosso próprio azar
para bradar nossa própria sorte

e salutamos uns aos outros
como sobreviventes do caos
mas dentro de nós
levamos todo o caos do mundo

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