bergamota sinsemilla



Segunda-feira, Dezembro 26, 2005


Dezembro, 25

Fontaneli não tinha muito o que comemorar naquele natal. Conquistas pessoais não tinha há tempos, amizades recíprocas eram uma rara ordinariedade,dessas que deviam aparecer sempre e não apareciam nunca. Mas tinha um cão, não muito amistoso, porém fiel como um cão-melhor-amigo-do-homem tem que ser. Ástrel não tinha raça definida. Não tinha sequer nome, ou se tinha, Fontaneli não sabia. Ástrel.

Ao estourar sua 6a garrafa de champanhe, lembrou da 6a série, das sextas-feiras, do sexto sentido, dos 6 pecados capitais. Não, eram sete! - corrigiu-se, mais um gole da taça. Em sua embriaguez, olhou o teto, olho o nada, olhou o teto mais uma vez, por trás da cortina de cílios, olhou o nada.

Acordou com o barulho da campainha. Achou que era sonho e tentou dormir, mas a sineta persistia. Levantou-se e foi até a porta, olhou pelo olho mágico. Droga, pensou, o que os vizinhos querem em plena noite de Natal.

- Diga, senhora Schreiden, o que a trás a minha porta nesta noite?
- Senhor Fontanelli, eu estava me perguntando se o senhor não poderia...
- Olha, senhora, eu estava dormindo, quem sabe amanhã...
- Mas sr., é um favor urgente que o sr. tem que me fazer. Meu gato Ástrel, ele está preso entre o armário e a parede, ele não consegue sair de lá, ele vai...
- Senhora, primeiro me responda uma coisa.
- Sim sr?
- Qual o nome do felino?
- Ástrel sr., como seu cão, não é?
- Mas a troco de quê a senhora botou no seu reles gato o nome do meu cão arisco?
- Eu ouvi o senhor conversando com ele uma noite, e eu estava tão solitária, e pensei: vou comprar um companheiro, então comprei Ástrel e achei que ia ser legal botar o nome em homena...
- A SENHORA NÃO COMPROU ¿ÁSTREL¿. ARRANJE OUTRO NOME PRO SEU GATO IMUNDO. ORA, CÉUS, SERÁ QUE NEM NO NATAL A VIDA ME POUPA DESSES DESPRAZERES PATÉTICOS.
- Senhor... d..d..desculpe, más será que o senhor poderia pelo menos...
- Eu poderia deixar seu felino sujo morrendo sufocado no seu próprio corpo de bola de pêlos, senhora Schreiden. Mas é Natal, não é? Mostre-me logo onde ele está.

Fontanelli e mais um de seus péssimos natais. Fontanelli e a irritação suprema que se apossava de seu corpo mal-humorado, seus fluídos endurecidos, sua alma anciã e doente. Agora ele faria caridade. Ah, como era bom. Os poucos momentos em que o crápula ficava alegre eram quando o sentimento solidário tomava conta de seu corpo, como se o altruísmo fosse palavra conhecida, ao menos.

Ah, sim. E agora, ele coroaria sua saga patética de noites natalinas com mais uma caridade besta que prorrogaria sua sofreguidão fragmentada. Que idiota! Que perdedor! E aquela vizinha besta ainda ousava copiar o nome de Ástrel. E além do mais botá-lo num gato sujo, podre, fétido, mórbido e interesseiro. Salvar um bicho desses, pra quê? Sim, caridade, caridade...aff!

- Aqui sr, se o senhor arrastasse...
- Oh sim, o gatinho, oh, como mia! Isso é choro ou alegria senhora? Sabe a senhora que sentimentos esse bolor carnívoro manifesta? Esse lixo que você ousou nomear Ástrel em homenagem ao meu familiar mais querido, meu ente mais presente, o único que passou o Natal comigo enquanto a senhora certamente era consumida por trás nesse seu quarto imundo, dava um chute no armário e esmagava seu gato sujo, retrato da sua desgraça, contra a parede! Eis minha caridade, senhora. Vou acabar o trabalho que a senhora começou!

Com um chute forte, prensou o armário que prendia o felino contra a parede. Um miado falho foi ouvido. Fontanelli beijou com olhos profundos a mão da mulher que sofria paralisada. Deixou o local e foi caminhar enquanto saboreava seu cigarro relaxante pelas ruas da Surrey.

Ao dobrar a esquina em direção à estação do SkyTrain, uma ratazana atravessou seu caminho. Sentiu um pouco de compaixão pelos gatos, afinal de contas, eles mantinham a cidade limpa dessas pragas. Lembrou do felino sujo que acabara de liquidar. Sentiu nojo dos gatos. Vá ratinho, corra na sua liberdade natalina, coma nozes, amêndoas e frutas na mercearia, mate esses felinos podres com sua leptospira eficaz. Mas não os cães, não Ástrel. Este era fiel, sentimental, vacinado. Quase como gente. Ora, preciso de mais uns goles.

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